Àqueles que não me conhecem, me apresento:
me chamo Mary Jane que em sânscrito erudito significa: aquela que insiste em escolher seus próprios caminhos.
Isso significa que sou cheia de opiniões.
Ultimamente, ando de saco cheio da maioria delas. O que é ótimo, já que meu mundo está prestes a virar de cabeça para baixo.
Estou grávida. Pela primeira vez. Nunca tive contato com esse universo. Meus amigos não têm filho. Não há crianças na família - com exceção de um, recém nascido em outro estado. Não fazia a menor ideia do que esperar.
Entenda-se: eu vivo minha vida freestyle. Sem saberes pré-programados, sem corresponder a expectativas que não sejam as minhas, sem obedecer a regras a não ser que concorde com elas. Sou do tipo que precisou fumar durante anos para concluir: fumar faz mal à saúde. É, Pedro Bó? É. Essa sou eu. Ame-a ou dane-se você.
Aos trancos e barrancos, consegui, ao longo da vida, deixar isso muito claro para as pessoas a minha volta. Mas na gravidez, todo transeunte se sente no direito de opiniar como se fosse um assunto de interesse público.
Muitas vezes são opiniões opressoras, cheias de cobrança e juízo de valor. E antes que você consiga se recompor e mandá-los todos à puta-que-o-pariu, você e seus peitos gigantes se descabelam um pouco.
Por exemplo: eu tive que parar de beber, de fumar e de tomar coca zero ao mesmo tempo. As pessoas - as malditas pessoas - dizem: parar de fumar foi a melhor coisa que já aconteceu na sua vida. Refrigerante dá celulite. Catar coquinho todo mundo! Os vícios eram meus e eu gostava deles. Se para você isso não seria um sacrifício, faça um exercício de imaginação e pense como seria cortar da sua vida, de uma hora para outra, as três coisas que você mais consome. Não é maneiro. Você sai a noite com os amigos e pede o que? opção a) água sem gás. b) água com gás. c) suco natural de frutas.
i-u-pi.
Para completar não posso ingerir nenhum produto diet/light. Como assim? Todos os produtos do (meu) mundo são lights! Ou você fica gorda ou você vive a base de luz. Essas são as minhas opções. Fora que você não pode pintar o cabelo, fazer sauna, tomar banho de banheira, nem consumir drogas, lícitas ou não. Você enjoa, fica gorda, com os peitos doendo, um sono do cão e um humor completamente bipolar. Ou seja, é uma tpm. Só que dura quase um ano.
Aparentemente, eu devia evoluir como pessoa e desapegar dessas coisas menores em prol de uma felicidade muito maior que é o milagre da vida. Não me entendam mal, esse bebê é queridíssimo, planejado. Mas isso não significa que eu tenha que mudar de personalidade, colocar um sorriso na cara e achar tudo maneiro. Até porque, no começo, antes das ultras, da barriga e dos chutes, você abdica em prol de algo que não conhece, nem é capaz de visualizar. É só uma questão de fé nas listras rosas do exame de farmácia.
Depois melhora, você vai no médico e o que era só um girino vira, de fato, um bebê com cabeça, tronco e membros. E as pessoas te perguntam: como assim, você não levou um dvd para ultrassonografia? Você tem que levar! Aí, você junta todas elas, faz uma edição, coloca uma música e manda para todo mundo por email!
Pausa para visualizar a minha cara de tacho.
Sim. As pessoas falam isso. E falam muitas outras coisas:
Você não está fazendo um diário da gravidez?
Você não vai a Miami fazer compras para o bebê?
Você não deveria estar comendo isso, deveria?
Você vai ter parto normal, né? Cesariana nem pensar.
Já olhou na internet?! Tem uns sites ótimos que contam o que está acontecendo com o seu bebê, minuto a minuto.
E, acima de tudo, elas não entendem porque você não fala sobre isso todos os minutos da sua existência.
Cara, não que não seja um assunto importante, se não fosse, não estava sendo discutido aqui. Mas, na boa, eu fiz duas faculdades, um mestrado, faço um programa de televisão toda semana, leio jornal todo dia, tenho 3 livros na minha cabeceira, escrevo, saio, viajo...
É sério que nego acha que eu vou ficar discutindo amamentação o dia todo? Se as pessoas acham que isso faz de mim uma (futura) mãe desnaturada, eu realmente não dou a mínima. Eu acho que faz de mim uma pessoa saudável.
...
Eu sei. Resmungando desse jeito parece que eu não estou curtindo estar grávida. Não é verdade. Há uma série de aspectos bacanas, divertidos e interessantes. Prometo dedicar um texto inteirinho a eles no futuro. Eu só me recuso a perpetuar o clichê do esplendor da maternidade, da grávida radiante, a mulher na melhor fase da sua vida. E é injusto cobrar isso das pessoas.
Quanto aos sintomas...bom, parece que melhora. Tomara. Adoraria fazer a Leila Diniz.
Fios e atavios no Armazém4
Há 10 anos