Eu tive um grande amor. Vivemos felizes por longos anos, compartilhamos certezas, desejos, sonhos, ambições. Acreditava na velhice junto a ele; ele, o meu sapato velho; a senilidade incapaz de nos separar. Nada poderia nos afastar.
Mas, caso do acaso, ele se apaixonou por outra. Conheceu uma moça ótima, aproximou-se dela, criou outras identificações e sintonias, e começou a me desamar. Eu, o ex-amor. Mas acontece, eu sei, é a vida, e é bonita. Todos somos passíveis de viver um novo amor, talvez melhor que o anterior, mais pleno. Eu, você, qualquer um. Não adianta tentar blindar o coração. Quando a paixão chega, não há como resistir ao seu ataque. É arrebatador, você não consegue se proteger: o amor, quando acontece, a gente esquece logo que sofreu um dia e se entrega. Todos os mecanismos de autopreservação são desativados.
Nessa história, eu sobrei e levei um solene pé na bunda. Não foi fácil, chorei, me despedacei. Quase enloqueci, quis argumentar, pedi a ele para ficar, mas depois, como era de costume, obedeci. Fui embora com meus sonhos destroçados.
Mas, sabe, até um pé na bunda faz você andar para frente. E agora estou refeita. Renata, renascida, está no meu nome, essa sou eu. Uma mulher que não tem vocação para tristeza, que reconhece a queda e não desanima.
E há pouco o noticiário televisivo confirmou: eu não poderia estar em lugar e momento melhor. A casa em que ia viver com meu ex está no meio de fogo cruzado. A guerra urbana dispara balas perdidas no quintal que seria meu, mas hoje é da minha sucessora.
Eu escapei do cu do mundo.
O cu do mundo Caetano Veloso
O furto, o estupro, o rapto pútrido O fétido seqüestro O adjetivo esdrúxulo em U Onde o cujo faz a curva (O cu do mundo, esse nosso sítio) O crime estúpido, o criminoso só Substantivo, comum O fruto espúrio reluz À subsombra desumana dos linchadores
A mais triste nação Na época mais podre Compõe-se de possíveis Grupos de linchadores
Andamos por aí. Encontros imprevistos, caminhos atravessados, rotas paralelas. Sabores muito parecidos e outros muito diferentes. Gostos que nos aproximam e nos afastam. Tantas coisas que nos distinguem e, por isso, despertam o interesse de um pelo outro. Ainda não sei muito dele, nem ele muito de mim. Há terrenos preservados, e há espaços que não quero invadir. Há lugares que ele prefere não conhecer. Sabemos do outro o suficiente pra gostar. E pra querer estar junto do jeito que dá pra ser. Mas, muitas vezes, não dá pra ser. E, nos dias de chuva, em que a água lava a janela e as lágrimas, o meu rosto, sinto falta do abraço dele. Sou acolhida então pela melodia da canção romântica que outro dia embalou nosso beijo.
Há duas semanas reencontrei um carinha por quem fui apaixonada a um tempo atrás. Naquela época, eu dei em cima dele, mostrei abertamente que estava a fim, mas ele não me deu a menor bola e eu fiquei um tanto desapontada e frustrada. Mas nos tornamos amigos. Perdemos o contato por uns anos (acho que dois anos mais ou menos) e há duas semanas nos revimos no Baixo Gávea. Eu estava com uma turma grande numa mesa do Braseiro e ele estava tomando chope na calçada com dois amigos. Assim que eu o vi, aquele sentimento antigo reacendeu. Ele estava lindo como antes, apenas com uns fios brancos começando a aparecer entre os cabelos escuros. Mais charmoso impossível. Quando percebi que ele ia entrar no restaurante para ir ao banheiro, levantei-me. Simulando estar distraída, aproximei-me dele. Quando ele me viu, abriu um sorriso largo e me cumprimentou com um abraço e dois beijinhos. Derreti. Trocamos algumas palavras sobre o que fizemos nos últimos tempos e confirmamos os números de telefones. Ele disse que me ligaria pra marcar um chope, pra gente colocar a conversa em dia. Telefonou no dia seguinte. Saímos e desde então estamos juntos. Estou muito feliz e semana que vem pretendo fazer uma homenagem a ele. Devemos ir ao karaokê e quero cantar pra ele uma música que eu adoro. Coloco aqui a letra da canção e peço que as amigas comandantes a decorem pra fazer coro comigo. Espero que ele goste. Torçam por mim!
Seguindo no trem azul Roupa Nova
Confessar Sem medo de mentir Que em você Encontrei inspiração Para escrever...
Você é pessoa que nem eu Que sente amor Mas não sabe muito bem Como vai dizer...
Te dou o meu coração Queria dar o mundo Luar do meu sertão Seguindo no trem azul...
Toda vez que for assoviar A cor do trem É da cor que alguém fizer E você sonhar...
Não faz mal Não ser compositor Se o amor valeu Eu empresto um verso meu Prá você dizer...
Só me dará prazer Se viajar contigo Até nascer o sol Seguindo no trem azul...
Te dou o meu coração Queria dar o mundo Luar do meu sertão Seguindo no trem azul...
Vai lembrar De um cara como eu Que sente amor Mas não sabe muito bem Como vai dizer...
Só me dará prazer Se viajar contigo Até nascer o sol Seguindo no trem azul Uh! Uh! Uh!...
Te dou o meu coração Queria dar o mundo Luar do meu sertão Seguindo no trem azul Seguindo no trem azul...
ela quer viver sozinhasem a sua companhia e você ainda quer essa mulher ela goza com o sabonete não precisa de você ela goza com a mão não precisa do seu pau ela quer viver sozinha sem a sua companhia e você ainda quer essa mulher que não sente a sua falta e quando você chega em casa ela não sente a sua presença ela tem um travesseiro mais macio do que o seu braço e um acolchoado muito mais quente que o seu abraço ela quer viver sozinha sem a sua companhia e você ainda quer essa mulher
Vivemos no país da impunidade, isso é fato. Centenas de pessoas, a cada minuto, têm seus pertences e, no pior dos casos, seus entes queridos, arrancados, usurpados de si, do mundo. E quem teve a graça de até hoje não ter passado por algo assim deve se considerar um sortudo dos bons ou até mesmo uma espécie de ET.
Na maioria das vezes os causadores de tantos males permanecem aí, soltos, impunes. A Lei dos Homens, criada para proteger, fazer 'Justiça', a cada dia anda literalmente mais cega, o que nos faz pensar que a madame carregando a balança na mão não passa de uma grandessíssima cínica, sonsa ou absoluta incompetente.
Agora vc imagina que se para crimes graves desse tipo, grande parte das vezes não há reparo ou punição adequada, quanto mais aos delitos 'não visíveis', inexistentes no Código Penal, os quais nós mulheres por vezes sofremos! Crimes estes habituais, ainda que não convencionais, cometidos por criaturas a quem nos entregamos e confiamos, com quem compartilhamos sonhos, vivemos como parceiras fiéis, dividimos nosso prato e nossa cama, demos colo e apoio (e dinheiro inclusive), sempre ali ao lado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...até que um belo dia, às vezes no susto mesmo, sem pistas ou anúncio, o meliante (até então fantasiado de homem-decente-companheiro-de-vida) se desmascara e nos arranca (tenta arrancar) tudo que temos, desde nossa dignidade e auto-estima até metade do nosso apartamento. Para isso então é que parece não haver mesmo a dita cuja da Justiça!
E saem por aí os cretinos, caminhando pelo mundo, impunemente, de espírito leve, coração e braguilha abertos, estampando felicidade e novas mulheres nos orkuts da vida(pobres delas, futuras vítimas tb, pois não sabem o que as espera) enquanto ficamos aqui, como besouros cegos cambaleantes em terreno inóspito e desconhecido...morcegos fêmeas, abatidas por moleques que sacodem varas de bambu na escuridão, nos atraindo e então nos golpeando a cara. E passamos dias sempre nublados e noites não dormidas, amargando a injustiça, tentando engolir o choro e o 'sapo-boi' que não desce...na casa dos nossos pais ou de algum amigo...ou então na própria casa, posta à venda, desfalcada de móveis e afeto...assistindo a poeira juntar nos cantos...a samambaia retrô da janela a definhar perdendo as folhas que se acumulam no chão (e num breve delírio poético imaginar que nada mudou e é apenas outono na sala )... Mulheres nós, antes apaixonadas, agora perdidas em meio a um limbo, entre dois mundos, um para o qual não conseguimos voltar e outro para onde não sabemos como ir, como Karol Anne (a pequena "Carolaine" de Poltergeist), que foi abduzida, sugada para dentro do armário do quarto certa noite e depois ficou lá ninguém sabe onde, sem entender porra nenhuma, ouvindo ora um povo gritar alucinadamente pra ela ir para a luz, ora pra se afastar da merda da luz! E a garota lá, perdidinha!!!
E não me venham falando que esses abusos absurdos não são provocados só por homens não e tal e blá, blá, blá! Existe mulher safada sim, mas juntem aí a quantidade de historinhas desse tipo que vcs já ouviram ou testemunharam e me digam se em 98% delas não foi a mulher quem se estrepou lindamente! Sorry, mas na grande maioria das vezes o agente causador de todo mau e dano é um bastardo do sexo masculino, sem honra nem consideração, sim!
Eu sugiro então um retrocesso. Na Idade Média, aos criminosos que não era cabida a pena de morte ou àqueles acusados de delitos morais ou falha de caráter, reservava-se outra forma de punição, um modo a fazer com que estes indivíduos não saíssem ilesos e nunca se esquecessem de seu pecado. Eram marcados a ferro quente no ombro com símbolos reconhecíveis pela comunidade, forma também de avisar as pessoas da espécie de gente que se tratavam.
Façamos isso daqui por diante, mulheres! A próxima vez que detectarmos um canalha, este haverá de ser marcado a ferro (na cama durante o sono é uma excelente oportunidade), de forma a alertar as outras de sua condição de pulha escroto e enganador!
Assim poderemos seguir adiante com mais dignidade! E talvez não perder a fé...nem deixar calar "A Pergunta" que, por mais que se tenha o coração partido e a paixão destroçada, continua a ecoar dentro do peito e da cabeça, ainda que não se queira...
Deixo Cat Power verbalizá-la através de sua meiga e bela voz...
Where is my love Where is my love Horses galloping Bring him to me
Where is my love Where is my love Horses running free Carrying you and me
Where is my love Where is my love Safe and warm So close to me In my arms Finally
There is my love There is my love Horses galloping Bring him in to me